Prof. Eduardo Carli relata experiência de ensino no ano letivo 2025 e a importância do questionamento filosófico audaz
Saudações, terráqueos humanos aqui do planeta Terra. Eu sou Eduardo Carli, estou aqui na Casa de Vidro e hoje eu vim falar um pouco sobre o ofício de ensinar filosofia que eu venho exercendo aqui em Goiás, no Instituto Federal, desde 2014, lá se vão quase 12 anos. O sentido principal deste vídeo e deste texto é uma partilha de experiência pedagógica realizada no ano letivo de 2025 lá no câmpus Anápolis onde eu leciono chamado PAREDE DOS PORQUÊS.

Quero relatar um pouco pra vocês o processo que eu incentivei os estudantes a realizarem, que é uma confluência entre o campo das ciências humanas, ou seja, a filosofia também se percebendo na escola como confluente da sociologia, da geografia, da história, e também uma confluência com o campo das artes, onde, aliás, o IFG tem atuação impecável sobretudo através do Festival de Artes de Goiás, do Encontro de Culturas Negras e a própria PROEX, a nossa própria Reitoria de Extensão e de Cultura. Então, no âmbito do IFG, também o campo das artes, das expressões artístico-culturais, é uma parte muito integrante, importante, relevante da instituição.

O Parede dos Porquês foi uma tentativa de trazer questionamentos estudantis para o muro, para o espaço transitável no interior do nosso campus. Eu queria relatar um pouco qual foi o procedimento para chegar a resultados como este aqui. Peguei um exemplo da Emily Vitória, Turma Química 3: não sei se pelo vídeo isso é sensível e palpável, como é aqui para mim, mas ela fez uma colagem muito interessante, colocando a questão “o que nos torna humanos?” e opondo aqui a alma e a consciência, e colocando ao mesmo tempo um verdadeiro toró de questões e trabalhando com o coração, o cérebro e a borboleta, esta aqui remetendo também a um ser vivo outro-que-humano, alado, voador, ou seja, dotado de aptidões que nós não temos.
Eu queria começar a aprofundar um pouco mais a importância da questão. A filosofia é um âmbito da aventura humana, da empreitada do homo sapiens, que é relativamente recente, digo isto por conta de uma consideração pelo tempo geológico: a filosofia de fato desponta há 2.500, 2.600 anos atrás, na Grécia, com os assim chamados pré-socráticos, os que seriam denominados como pré-Sócrates depois, postumamente. Uma pergunta se esvaiu, mas logo a retomaremos. A importância do questionamento está lá na aurora, na invenção da filosofia, e o desafio hoje era fazer com que esses jovens do ensino médio técnico integrado, ali a galera entre 14 e 18 anos, conseguisse encontrar uma questão pertinente, ao invés de apenas pensar a partir de questões formuladas por outrem.
Porque, digamos assim, por mais que sejam brilhantes as questões da tradição filosófica, elas nos cutucam a pensar, não é a mesma coisa do que pensar a partir de uma questão que você mesmo retirou das próprias entranhas. Nós podemos ficar horas debatendo uma questão metafísica canônica como “por que existe alguma coisa ao invés de nada?”. Nós podemos passar horas debatendo alguns questionamentos de Descartes, por exemplo, quando ele está lá no processo de demolição de todas as crenças e dogmas que lhes foram impingidos às crianças francesas de sua época, pela escola, pela família, pela imprensa nascente, quando René está num processo meio de demolição para encontrar aquela pedra fundamental para alicerçar o edifício do pensamento, ou seja, quando ele está praticando a dúvida metódica, ele chega a se perguntar: “Porra, será que há um diabo maligno, num lugar onde eu concebo que estaria Deus, e ele está me enganando?” Essa questão cartesiana é muito instigante. E se, ao invés de um Deus cosmocrata no comando, foi um demônio enganador e sádico que está projetando falsidades na minha consciência e na verdade não há nada disso lá? É um cinema diabólico que esse Lúcifer-Trickster está aplicando. Isso já é o prenúncio de Matrix, certo?
Ou questões como aquela de Santo Agostinho, quando ele fala que, bom, eu sei perfeitamente o que é o tempo, desde que não me perguntem. Caso alguém me pergunte o que é o tempo, putz, deu tilt, travei, vou precisar investigar, achava que sabia o que era o tempo, mas agora que você me pergunta e me força a falar sobre, pô, que complicação. E muitos outros exemplos, o próprio Sócrates, a sua atuação na cidade de Atenas, na praça pública da pólis, era ser essa mosca irritante que ia lá e apunhalava os passantes com questionamentos.
Então, a filosofia tem como uma espécie de motor de propulsão o questionamento. E me pareceu interessante, até da perspectiva um pouco da Pedagogia do Oprimido, de que melhor do que você impor uma questão ao outro, sobretudo você chegar com uma questão formulada por um homem branco europeu morto há muitos séculos e que virou cânone, ao invés de pegar essa questão europeia e aplicá-la aqui num movimento de cima para baixo, tentar fazer um movimento de baixo para cima com esses estudantes, com esses discentes, com esses alunos, para que eles, enraizados na sua própria situação existencial e sociopolítica local, anapolina, goiana, brasileira, eles pudessem emanar de si essa questão.
Então, o método que eu usei, aí eu chamei meu auxílio Conceição Evaristo e pedi que eles fizessem uma escrevivência, relatando algo que havia ficado na memória de maneira indelével, alguma lembrança que eles não sentiam que fosse apagável, alguma coisa no corpo deles, nessa psiquê estudantil, que não pode ser apagada a despeito do nosso imediatismo, a despeito de nossas vidas serem vividas para serem instagramáveis, apesar de nosso curtoprazismo. Eles tinham que encontrar alguma vivência que não tinha passado, alguma vivência passada que ainda era presente em seus efeitos. E dessas escrevivências eles extrairiam uma questão principal, de preferência que não tivesse resposta, que serviria como uma espécie de estrela guia no percurso deles pela filosofia, ou seja, um ponto de interrogação que eles lançassem ao seu próprio horizonte para que orientasse essa caminhada de busca, de estudo, de diálogo e de encenação.

E no caso desse projeto, da escrevivência à questão geradora e daí aos muros, aos lambes, aos cartazes grudados nas paredes, onde os passantes podem ser interpelados, podem ser convocados, podem ser cutucados a pensar a partir dessa questão. Essa foi a premissa. É daí que o projeto se desenrolou. Da escrevivência à questão, e aí essa questão nutre um lambe, mas também nutre uma outra vertente que aí conduz ao teatro. Então eu percebo que eu, ainda que sem formação de arte-educação, tendo muito interesse por esse campo, mas sem propriamente ter passado por um processo de ser ensinado a ensinar arte-educação, não passei por isso, então eu improvisei um caminho. E ele perpassou pelo teatro, no sentido da encenação de diálogos, onde essa questão que o sujeito da escrevivência extraiu das suas vivências mais memoráveis, e com frequência mais traumáticas, dessa questão você desenvolve uma interação com o outro. Então você vai com essa questão ao âmbito da alteridade. Você pede ao outro: “Vem cá, me ajuda com a minha questão.” E isso me pareceu que era a experiência crucial para eles vivenciarem sobre o que é a filosofia.

Me parece que a filosofia tem muito a ver com essa sondagem da autorreflexão, do autoconhecimento, que toda essa tradição socrática nos deixou carecas de saber que é o caminho para a virtude, além da moderação das paixões e dos excessos que conduzem ao vício e ao extremismo. Nessa ética socrática, platônica, aristotélica, que virou tão dominante no mundo ocidental via cristianismo, via judaísmo, via monoteísmo, você tem aí toda uma concepção de mundo e de conduta que responde a uma grande questão que é o “como viver?”, ou melhor, “como viver bem?”, ou melhor, “como conviver bem para viver bem?”. Então, essa questão da virtude, da felicidade, da eudaimonia enquanto florescência, tudo isso é essencial para a filosofia, como prática de auto e alter transformação, né? Um processo prático-político onde os sujeitos se transformam através do diálogo e da interação, pois eles partilham perguntas, eles têm questões que eles querem investigar juntos.
E eu notei muito nessas escrevivências o quanto surgia uma galáxia de questões sobre o sentido da vida, sobretudo, mas o sentido do mundo, o sentido da sociedade, o sentido de certas ocorrências sociais, que às vezes eles passam na pele: tem um amigo que se suicidou ou morreu atropelado, tem um avô ou um tio que foi para uma UTI, na Covid ou não. Várias vivências nutrem a questão. É muito, muito interessante, muito importante que os estudantes trazem questionamentos sobre o sentido, muitos deles formulados de várias maneiras, mas que eu traduziria assim: a nossa vida tem um sentido pré-determinado ou é preciso que nós o inventemos?
E essa questão se dissemina também por outras correlatas. Porque se a gente se pergunta sobre o sentido da vida humana, a gente pode também se perguntar a respeito de todas as vidas que foram excluídas desse questionamento sobre o sentido da vida humana. E você pode começar a questionar: mas e o sentido da vida de uma barata que eu acabei de esmagar debaixo do meu sapato? Ou seja, você pode começar a questionar, digamos, a vida com “V” maiúsculo, a vida que é muito maior do que os seres vivos humanos, no panorama da teia da vida. Nós podemos ter essa ilusão antropocêntrica de que nós somos fulcrais, centrais, que estamos realmente ali no local mais importante do cosmos e tendo a atenção do chefão da porra toda, desse Deus Pai, desse cosmocrata onipotente, com os olhos voltados para nós. Essa grande ilusão narcísica, monoteísta, eurocristã, que também importa questionar quando você põe o sentido da vida em geral, e não só da vida humana, em foco.
Bem, eu acredito nisso, numa filosofia questionadora, questionativa, que saiba na escola, num instituto, por exemplo, como esse, o IFG, uma filosofia que saiba colocar boas questões para que os estudantes se sintam engajados em um processo de pesquisar mais sobre essas questões. E eu estou aqui com alguns livros que me parecem também interessantes para mostrar o escopo, a magnitude da pergunta, do ato de perguntar, da ação cognitiva, mental, psíquica, do questionamento crítico das coisas que a filosofia promove.

“Sobre o que nos perguntam os grandes filósofos?” Aqui o Leszek Kolakowski. Perdoem aí o meu polonês, viu? É… não sei pronunciar o nome correto, ele que me perdoe, mas Kolakowski tem um livro muito interessante, que coloca a filosofia na perspectiva de apresentar os grandes pensadores a partir do que eles nos perguntam. Então, inclusive, para nós compreendermos a diferença entre Parmênides e Heráclito, ele faz dois capítulos sobre que tipo de pergunta Parmênides endereçou ao mundo e que gerou uma certa resposta, uma certa cosmovisão, e que outro tipo de perguntas Heráclito, o filósofo do Tudo Flui, colocou e como que se deu que esse Panta Rei, que esse Tudo Flui, fosse a resposta ao enigma que ele formulou.
Aqui também tem o Nicholas Fearn, “Filosofia, novas respostas para antigas questões”. Mais uma vez aqui, questões no centro de um livro de filosofia destinado ao grande público, publicado pela Zahar. E há “100 ideias para ensinar filosofia e ética”, do John Taylor, para professores do ensino médio. Ele tem um trecho aqui muito massa, falando primeiro sobre o método da dúvida, onde ele vai falar que, “no que tange a filosofia, a fé não necessariamente é uma virtude, e a dúvida tem suas vantagens.”
Veja só, eu também compactuo muito com isso. A filosofia não é, não deve ser, não pode ser uma serva subserviente da fé. Ela não é uma criada da teologia e ela não está aqui para enxergar certos campos, certos locais como inacessíveis, como proibidos. Então a filosofia está aqui sim para questionar a fé, para questionar Deus e o diabo, para questionar o bem e o mal, para questionar paraíso e inferno e purgatório, inclusive. Então, a filosofia também é um empreendimento de fazer da dúvida um método, uma prática fecunda. Duvidar é o começo do filosofar. Isso, inclusive, em um cara que se tornou bastante dogmático, como Descartes. Descartes começou por aí. Tudo bem, muitos se tornam dogmáticos no fim da filosofia, mas também começaram, como Descartes, por tentar colocar tudo em dúvida para encontrar um alicerce sólido.
E aqui, vejam só que interessante, como ponto de partida para a filosofia e a ética, o John Taylor coloca um capítulo chamado “Faça uma pergunta engraçada”. Vou tentar isso, me aguarde o IFG, que é, por exemplo, “meu azul é igual ao seu?”. Uma pergunta que tem a sua graça e é uma boa pergunta. Será que você percebe o azul da mesma maneira que eu? Será que a sua consciência sensível opera como a minha? E quando você coloca isso para criaturas outras que humanas, adoraria que a gatinha Tânia Caterina estivesse presente aqui nessa sala nesse momento, mas ela está ausente. Mas imaginem aqui a gata Tânia Caterina olhando para o filósofo, por exemplo, Jacques Derrida. O que ocorre quando você concebe o azul percebido por um gato em contraste com o azul percebido por Jacques Derrida? E o que acontece quando o animal te olha, quando ele te interpela, quando ele emite sons pelo seu aparelho fonético para comunicar algo para você? O que ocorre nessa interação interespécies com a consciência de cada um? E aí, o meu azul é igual ao seu? É possível que o seu azul esteja sendo visto por uma consciência sóbria e por isso é um azul sóbrio, enquanto no caso de Jacques Derrida, ele pode estar, em virtude dos seus estudos, da sua prática da filosofia ou de alguma substância estupefaciente que tenha tomado, ele pode ver o azul em transe, certo? A pergunta é boa. O meu azul é igual ao seu? No que o seu azul difere do meu? O que é, afinal, o azul? “Me diz por que o céu é azul?” – cantará Renato Russo, não é? Grande perguntador.
E, além disso, as perguntas sobre identidade pessoal, ele (Taylor) também valoriza muito. “Você é hoje a mesma pessoa que foi ontem?” Pergunta Heraclitiana. Se tudo flui, as pessoas também fluem.
E já me encaminhando para o meu último exemplo de livro, um grande parceiro na minha trajetória enquanto filósofo foi Gustavo Bernardo, que me foi apresentado pelo Robinson Bucci, vulgo Tibúrcio, ainda no ABC Paulista, quando eu era um adolescente, nas aulas de redação. Fui apresentado pelo Prof. Tibúrcio a Gustavo Bernardo, a seu texto “Espelho”, e também ao “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes” de André Comte-Sponville. E acabou que o Gustavo Bernardo, e sobretudo aqui o “Redação Inquieta”, e o André, toda a sua obra, se tornaram gurus realmente para mim, grandes mestres que eu segui e que transformaram minha vida no sentido de que me puxaram para a filosofia e eu nunca deixei de persegui-la. E quando eu tinha a idade dos meus alunos hoje, quando eu tinha esses 14, 15, 16 anos, no ensino médio, eu recebi o texto “Espelho” de uma maneira que eu acho que até hoje ressoa. E até hoje eu trabalho também esse texto “Espelho” com os estudantes, trabalho no slide um dos capítulos da “Redação Inquieta”.
E eu, como alguém que também produz sem cessar as escrevivências e alguém que se percebe como um escritor desassossegado e que não pode evitar derramar sobre a página ou sobre a tela em branco digitada uma inquietude, eu ainda encontro no Gustavo Bernardo, nesse trecho, muitas questões inquietantes que eu continuo investigando, inclusive sobre o tema da identidade pessoal e da mutabilidade no tempo do ser que somos, dessa entidade psicossomática envolta numa teia de interdependências que somos, cada um de nós e todos. E sempre me pareceu muito impressionante a clareza, a simplicidade com que o Gustavo Bernardo diz que as perguntas fundamentais são quatro, dizem por aí: Quem sou eu? De onde vim? Para onde vou? E, afinal de contas, o que estou fazendo aqui?
Quatro questões em um parágrafo de três linhas. E eu já fiz o experimento, literalmente, de ficar horas debatendo com os estudantes essas questões, porque elas são muito fecundas, e elas são muito abertas, muito abrangentes, e também são perguntas que não sei se existe algum indivíduo humano, racional, que não se faça.


E “quem sou eu?” e “de onde vim?” traz uma dimensão do passado, da fonte, da origem, de um processo genealógico, de um enraizamento, de uma ancestralidade, de um processo pretérito que veio dar nisso que eu chamo de eu. Então, “de onde vim”, além do que, tem um sentido que pode ser interpretado tanto espacial quanto temporalmente. Eu vejo esses dois vetores. “De onde vim”, se você se pergunta concretamente, você faz essa pergunta na escola, a pessoa diz: bom, eu estou aqui no IFG Campus Anápolis e eu vim de casa. E eu peguei o busão tal e demorei 40 minutos para fazer o deslocamento do centro até aqui no nosso campus, vizinho ao cemitério e ao IML. Então, literalmente nos últimos minutos, eu vim de casa para a escola. E aí você pode ir recuando no tempo e outras proveniências espaciais. Por exemplo, a pessoa dizer que eu vim do Maranhão ou do Pará, para Anápolis, para Goiás, no ano tal, 2017, por tais e tais razões. Então, vir de algum lugar significa também que você se desloca no espaço.
Mas tem uma dimensão também temporal, digamos assim, lá atrás, nesse tempo da memória, da lembrança, ou mesmo do que não se consegue mais acessar, nem com a memória pessoal, nem com documentos, né? Esse passado distante, tudo isso nutre esse “de onde vim”. E aí você também pode, extrapolando, quando você começa a fazer o estudante perceber que essa linha do tempo em direção ao passado é muito mais comprida e extensa do que somos levados a pensar. Nós somos iludidos a pensar, inclusive pelo número 2025 d.C., 2026 d.C., a nossa contagem temporal a partir de Jesus Cristo, ela tende a nos colocar nesses dois mil e poucos anos em relação a esse marco zero instituído histórico-culturalmente. Mas o tempo antes de Cristo é muito mais imenso, incomensuravelmente mais imenso do que esse tempinho minúsculo que se passou desde J.C.
Quando as pessoas começam a compreender isso, esse tempo histórico, esse tempo da vida no planeta, e esse tempo geológico mesmo, o tempo do planeta, quando nós vamos nos encaminhando aos bilhões de anos, esse “de onde vim” também adquire um aspecto cosmológico.
E do mesmo modo, “para onde vou?”, essa dimensão desse futuro, desse porvir, de maneira mais imediata. Para onde vou? Bom, eu vou da escola para o RU bater um rango, e depois eu vou sair com os meus amigos para ir no cinema, ou seja, eu vou sair do IFG e eu vou para outros lugares e finalmente hoje à noite eu vou para casa descansar. Mas ao mesmo tempo, para onde eu vou no futuro? Eu vou para qual profissão? Eu vou para que tipo de aposentadoria? Eu vou conseguir constituir família? Eu vou ter quantos namorados e namoradas? Eu vou ter quantas relações? Para onde vou depois que eu morrer?
Essa também é uma questão que aflige e que instiga muitos seres humanos, inclusive muitos estudantes, a pensar a morte e o seu depois, a morte não como uma porta para o nada, mas como algo que dá algum tipo de continuidade. E aí a controvérsia sobre essa continuidade é também uma porta de entrada extremamente fascinante para a filosofia.
Porque imaginem o seguinte, você pode ensinar a oposição entre materialismo e idealismo, ou entre ateísmo e criacionismo, a partir dessas grandes questões. O que vem depois da morte? O que é o fenômeno da morte e o que ele produz como efeito na consciência do sujeito e no mundo assim chamado objetivo? Então, partindo daí, você pode vir com a resposta materialista, com a resposta que começa com Demócrito, com Epicuro, com Lucrécio, e vem nutrindo a história e vai parar no Renascimento, com a redescoberta de Lucrécio, mas também com Giordano Bruno, com Diderot, com Helvécios, com toda uma tradição iluminista materialista, que Marx e Engels estudaram muito bem, aliás. E você pode vir com a resposta materialista, que a morte vai propiciar que os átomos que nos compõem, enquanto seres vivos compostos por essas partículas elementares, possam se unir de outras formas, constituindo outros agregados após a dissolução desse agregado transitório chamado corpo.
E de outro lado, toda uma tradição religiosa idealista virá para afirmar que existe um fantasma na máquina, existe um espírito nesse corpo e que ele pode transmigrar, como na doutrina pitagórica e metempsicótica de uma alma, de um fantasma que migra de corpo a corpo, inclusive os animais envolvidos nessa parada toda. Então, a partir dessa grande questão sobre o morrer, sobre a morte, sobre o que vem depois, você pode explicar a diferença entre grandes tradições filosóficas, grandes tradições sapienciais.

Acho que eu já disse o suficiente sobre uma pequena introdução sobre a pergunta, o ponto de interrogação e a importância crucial que isso tem no campo da filosofia, e acho que já é uma boa justificativa para dar tanto peso para o questionamento no cotidiano da minha prática enquanto professor. Mas eu quero terminar de maneira mais pé no chão e mais aproximada da crônica, e falar um pouquinho sobre a experiência mesmo de ir com esses alunos aos muros da escola, com as questões que eles formularam e que depois eles colocaram nesses posters, nesses papéis A4.
Foi um processo que também contou com o auxílio da Elza Gabriela, professora de artes do IFG, que nos auxiliou com a parte prática de lidar com a cola, o nível de mistura com água que é preciso para ter o grude melhor possível, como lidar com a superfície da própria parede. A Elza, com já alguma experiência acumulada no campus com os lambes, pôde nos fortalecer, nos dar uma ajuda nesse sentido. Mas a minha relação prática com a arte urbana do lambe-lambe não havia ainda sido perpassada, de fato, pelo mãos à obra, pelo sujar as mãos de cola para fazer. Então, com essas cinco turmas, os três terceiros anos de comércio exterior, de química e de edificações, e também com dois segundos anos, o de comércio exterior e o de química, nós então produzimos esse, digamos, evento pedagógico-cultural, onde mais de 80 obras questionativas dos estudantes foram coladas nesse grande mosaico, que fica ali perto da rampa, onde se sobe para o segundo andar, para as salas de aula do Instituto no segundo andar.
Então, nesse local de passagem, de circulação, de subida e descida pelo Instituto, ou seja, ali onde nós temos os transeuntes, nós colocamos ali esse mosaico de questões, um pouco sobre a inteligência coletiva ali se manifestando. É uma possibilidade dos estudantes também se relacionarem com as questões uns dos outros e foi muito interessante.

Eu também quero deixar um agradecimento aos meus colegas docentes, servidores técnico-administrativos que acolheram essa ideia, esse experimento pedagógico fora da curva, que passou inclusive por uma reunião do CONCAMPUS. A gente sabe que as paredes do Instituto Federal são patrimônio público e a gente não pode simplesmente, sem aval, sem permissão, fazer um grafite, um pixo, uma parede de lambes, uma poesia de parede ali, sem que as instâncias aprovem. Então, essa reunião do CONCAMPUS foi muito bacana, eu me lembro muito bem dela, porque eu estava na cidade de Goiás, estava lá no Festival de Artes, curtindo essa programação esplêndida que ocorreu por lá em 2025. E aí entrei numa ligação para justificar um pouco a pertinência da presença da Parede dos Porquês ali. E aí fui muito bem acolhido, foi um projeto que o CONCAMPUS aprovou por unanimidade.
E é claro que eu também devo me desculpar pelo mau jeito. O nosso primeiro experimento com a parede dos porquês deixou um pouco a desejar do ponto de vista técnico, né? Nós tivemos muitos lambes enrugados, nós tivemos muitos lambes que logo se rasgaram, nós tivemos um processo que não gerou, do ponto de vista estético, uma coisa tão impressionante quanto é o campus do IFG Cidade de Goiás, com todos aqueles grafites coloridíssimos, belíssimos, de que eu sou muito fã. Mas foi uma tentativa, foi um experimento, estamos engatinhando juntos numa comunidade de aprendizado sobre como fazer a filosofia parte dessa comunidade e principalmente interagir com conteúdos das ciências humanas, mas também cada vez mais das ciências naturais, essa fronteira está caindo. Então, você vai ver muitas questões estudantis, que também são questionamentos em relação ao que se faz no campo das ciências naturais, ou das ciências da computação, ou das ciências emergentes, das inteligências artificiais.
Então, esse foi um experimento de trazer uma polifonia de questões. Para remeter também aqui, no finzinho desse vídeo, a Olgária Matos, grande mestra também, que muito me inspira, assim como Marilena Chaui e Márcia Tiburi e Viviane Mosé. No Brasil tem uma tradição fantástica de mulheres filósofas questionadoras, que muito nos inspiram, né? E eu acho que a Olgária Matos foi brilhante ao propor a polifonia da razão como outro nome da filosofia, né? Essas várias vozes da razão. A gente talvez deva parar de chamar de razão com “R” maiúsculo e pressupondo algo unitário, né? Há várias cosmovisões, há várias tradições sapienciais que emergem de variados exercícios das razões. E se a gente começar a pensar na razão-não-ocidental, no que seria uma razão africana, uma razão asiática, né? O que é para um sábio budista o exercício da razão? O que é para um sábio griô, adepto da ética do Ubuntu, o uso da razão? O equivalente dessa potência intelectiva, cognitiva e sensível que se dá o nome de razão em outros territórios.
Então, em síntese, eu quis, no fim do ano letivo de 2025, vir aqui, abrir a câmera para compartilhar um pouco essa experiência, que foi muito rica, foi muito comovente, e que eu recebi excelentes feedbacks dos estudantes. Acho que eles gostaram de fazer. Me agradeceram pela oportunidade de também se expressar na escola. Eu acho que isso também está no espírito da pedagogia do oprimido, é você dar expressão ao estudante ao invés de vê-lo como uma esponja que deve receber os nossos jatos e simplesmente de maneira passiva engoli-los. E também para que eles não se vejam como um pequeno banco de capital humano e acadêmico, onde a gente vai depositando moedinhas de valor monetário nesse grande mercado das ideias e das profissões. Ou seja, uma outra concepção de escola, de Instituto Federal e de filosofia, inclusive, que vai colocar muito mais autonomia, muito mais agência, muito mais poder questionador e transformador nesse estudante que sente que a sua pergunta importa, que alguém está inclusive dizendo para eles: eu quero que a sua pergunta esteja no muro para todo mundo ver. Então, é um pouco um ato de empoderamento, eu acho.
E aí, nesse processo de documentar essa atividade, através de fotos e vídeos, acabei também fazendo algumas entrevistas com estudantes que relatam suas vivências de participar da Parede dos Porquês, num processo que envolveu também a escrevivência e a encenação dos diálogos filosóficos. Então é um material muito interessante que vai agora irrigar o prosseguimento dessas práticas:
Eu quero fazer uma segunda edição do Parede dos Porquês agora em 2026, um ano letivo que se inicia. E também, para além da Parede dos Porquês no IFG de Anápolis, eu acho que essas pequenas obras, elas podem de algum modo ser compreendidas como uma criatividade juvenil, emergente, conectada com o âmbito da memética. Essa galera hoje em dia é hiperconectada, essa geração dos nativos digitais, eles têm vontade de uma vida que tenha sentido e muitos deles têm essa ambição de ter um impacto, mas eles concebem isso a partir do modelo do meme que viraliza.
E olha que interessante, se uma pergunta filosófica transformada num meme, que ali tem uma ilustração, um desenho, uma montagem, ou mesmo instruções que foram dadas a uma IA, imagine que uma dessas obras pode de fato viralizar na internet, pode ser reblogada aí nos Tumblrs, nos Instagrams, nos Facebooks da vida. Então é interessante pensar também uma certa inclusão da cibercultura, um certo debate sobre essa visibilização que o sujeito contemporâneo quer ter tanto na rede social. E como que a gente reconfigura isso de maneira que a gente não seja só uma função censora, dominadora, que diz assim: “desliga o celular, moleque. Vou trancar essa porra desse dispositivo no armário. Você está proibido de usar essas ferramentas durante a minha aula!”. Fica só numa coisa meio tecnofóbica. Aquele professor: “eu vou pegar o giz aqui, ó, copiem tudo no caderno, decorem, porque tem prova semana que vem!” Essa educação não só analógica, mas opressora, bancária, depositista, ela precisa passar, ela precisa ser superada.
E me parece que hoje em dia a gente precisaria fazer com que os estudantes sentissem que a internet não está aí para ser consumida. A internet pode ser um espaço de expressão onde você contribui colocando um conteúdo novo, inovador lá. E isso também vai passar pelo questionamento. Você pode colocar uma questão nova na internet. Digamos assim, em termos de ambição, você pode pensar que muitos estudantes são influenciados por influenciadores a desejarem serem influenciadores eles também. Entende? Ou esses estudantes que são muito fãs de música pop e que são de idolatrar a Taylor Swift, a Beyoncé, o Linkin Park, Kendrick Lamar, a Anitta, quem quer que seja. Esses adolescentes muitas vezes têm fantasias de ter um impacto a partir da sua expressão, da sua mensagem, do artefato cultural que criam.
Então também foi no sentido de me conectar um pouco com a vontade dessa juventude e pensar com a Paula Sibilia uma escola que não seja só paredes, mas que esteja aberta para as redes. No sentido de que eles também geraram nos seus computadores, nos seus notebooks, nos seus celulares, uma imagem digital que pode ser postada, que pode ser replicada, que está no novo regime da reprodutibilidade técnica de que falava o Walter Benjamin. Então, eles têm uma possibilidade de aprendizado sobre criação de conteúdo memético, viralizável, que tem um conteúdo socialmente benigno, que é a pergunta.
Por tudo que eu disse aí atrás, é claro que algumas pessoas podem ficar com muitos pés atrás diante dessa atitude, que principalmente os conservadores têm muito temor e muita fobia dela, que é de criar uma juventude com questionamentos indomáveis, inclusive das autoridades. Mas nós precisamos disso, precisamos de uma cidadania questionadora e que ouse afrontar com o seu questionamento inclusive as maiores autoridades da fé, do mercado, do empresariado, do Estado, de todos os poderes. Então é isso.
Parede dos Porquês foi um projeto realizado no IFG Campus Anápolis em 2025. E esse foi um pouco do relato dessa experiência e também uma conceituação a respeito da importância da questão. E eu quero terminar, vou pegar o meu caderninho aqui, com a leitura de uma escrevivência minha, que está aqui nesse caderninho, tem um cérebro na capa, e abaixo está escrito: “use!”, do Cadernos Filosóficos, adoro, recomendo. E no dia 24 de setembro de 2024, este filósofo, doutorando na UFG, pesquisando Antropoceno e Cinema, fui a Pernambuco para participar da ANPOF, o grande encontro da Associação Nacional da Pós-Graduação em Filosofia. E na primeira página desse caderno, que eu comecei a redigir nessa ocasião, que é muito instigante para nós filósofos e nós pós-graduandos em filosofia, eu tentei enfrentar a seguinte questão: para que serve a filosofia? Qual é a serventia desse treco? Qual a utilidade desse trem chamado filosofia?
E aí eu quero ler para vocês um pouquinho dessa escrevivência para terminar.
Para que serve a filosofia? A pergunta, dependendo do tom em que é feita e de quem é que a profere, tem uma peçonha ofensiva. O questionador talvez suspeite que não serve para nada. Deleuze responde que a “filosofia serve para prejudicar a tolice”. E “não tem outra serventia a não ser denunciar a baixeza do pensamento sobre todas as formas e criticar todas as mistificações”. Fecha aspas, Gilles Deleuze, filósofo francês. Mas a estupidez e a irreflexão são fortes demais. É a lei dos grandes números e nós filósofos poucos e muitas vezes desorganizados.
Parto hoje de Goiânia em uma longa jornada que deve me conduzir à ANPOF do Recife. Vou ouvindo nos fones de ouvido a Banda de Pau e Corda. “O que é verde amadurece, o que é velho se renova”, eles cantam. Lá na ANPOF, o maior dos encontros filosóficos do Brasil, uma demonstração de nossa capacidade maturante de organização e de intercâmbio de saberes e vivências. Em uma semana de imersão, é possível ter acesso a um panorama abrangente das pesquisas que se fazem hoje na universidade, para além de palestras e mesas com pensadores graúdos e renomados, além de atrações culturais.
Recife e Olinda, que conheci apenas de passagem anos atrás, me seduzem como um magneto a saber mais sobre a cultura popular, frevo, maracatu, mangue-beat, e sobre a história. Sou, sobretudo, fascinado pelo período da empreitada colonial holandesa em Pernambuco. Também o povo Fulniô me interessa faz alguns anos, desde que eu conheci a sua musicalidade acachapante na Chapada dos Veadeiros. Mas, antes de Pernambuco, rumo para São Paulo, em mais um episódio da Long and Winding Road da vida, a longa e tortuosa estrada da vida.
E vou como um discípulo de Dioniso, em busca da sabedoria tragicômica de Nietzsche. Amplamente conectado com o slogan “Deus está morto”, Nietzsche foi um ateu anômalo, descrente no Deus da tradição judaico-cristã e islâmica, crítico do monoteísmo. Faz, no entanto, uma exaltada apologia do deus Dioniso. E não se trata de uma celebração confinada ao âmbito da arte. O dionisismo nietzschiano não é apenas uma postura, um parti-pris em estética, mas uma sabedoria, um modo de viver, que ele recomenda aos espíritos livres vindouros, em que é central a figura do sábio dionisíaco, que prefere ser um sátiro a ser um santo. Não se trata apenas de mobilizar o deus do teatro na genealogia da tragédia ática, o que é feito pela maioria dos doutos eruditos que se debruçam sobre as raízes da arte dramática. No palco da história, sondando os conflitos viscerais no âmbito da cultura, nos últimos três milênios, Nietzsche chega a algo emblemático: a contradição entre o Dioniso e o Crucificado. Que cosmovisões antagônicas, que possíveis sabedorias poderiam ser extraídas desta oposição entre o Dioniso pagão e o Crucificado cristão?
É isso. Ficam muitas questões.
A seguir, alguns vídeos gravados e fotos tiradas durante o projeto, sem edição, possivelmente as matérias-primas para um futuro documentário.


ALGUMAS OBRAS:


Publicado em: 12/03/26
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
A Casa de Vidro Ponto de Cultura e Centro de Mídia